Com maior envolvimento das aldeias, “A Última Floresta” solidifica caminho do novo cinema indígena brasileiro

25 abr 2022

Por Pedro Strazza

No audiovisual brasileiro, é muito mais fácil enxergar uma questão indígena que um cinema indígena. Historicamente ameaçados pelo homem branco em múltiplas frentes, os povos originários do país também são tradicionalmente englobados pelas artes como objetos de retrato, figuras de estudo que pertencem às margens ou centro das histórias, mas nunca na autoria.

Esse movimento é amplo e pode ser melhor percebido em artes de maior metragem histórica como a literatura, que passou séculos exercendo essa configuração das coisas, mas naturalmente afeta o cinema, dos documentários mais sérios aos filmes de gênero mais despretensiosos. Se esse esforço a princípio é feito com a melhor das intenções – enquadre as aldeias e traga sua figura para dentro do imaginário nacional – com o passar do tempo isso mais afeta que beneficia as aldeias por eliminar sua voz. Reduzem-se os indígenas a uma questão quando eles também são parte da população brasileira, e por essa constatação se torna evidente que eles também tem algo a dizer e enxergar pela lente da câmera.

É por esse raciocínio que nos últimos anos acontece uma tendência de não apenas filmar as aldeias, mas também conferir a elas os meios para adentrarem o artesanato do cinema. Além de projetos como a Vídeo nas Aldeias, projeto histórico que busca fortalecer a identidade desses povos pelo meio da imagem, cada vez mais filmes voltados ao tema se preocupam em envolver esses grupos históricos em sua concepção, alinhando assim o retrato e a criação.

Cena do filme “A Última Floresta”, de Luiz Bolognesi

Isso inclui o trabalho de cineastas como Luiz Bolognesi, que acredita na afirmação de que fortalecer o cinema indígena brasileiro é também uma forma de permitir que o país como um todo aprenda ainda mais sobre si mesmo.

“A importância de abrir caminhos para que os próprios indígenas contem suas histórias é a gente poder conectar com o frescor da linguagem, a fala e a potência do modo de ver o mundo essa sabedoria de doze a quinze mil anos que nós temos na América pelos povos originários”, declara o diretor ao nosso blog; “O conhecimento deles, a ciência, a mitologia, a filosofia, todo o saber médico está nas narrativas orais. Então a gente, muito mais que fazer filmes sobre eles e com eles, passa a ser muito importante agora ajudá-los a se habilitar a produzir os próprios filmes, para que eles façam cinema com o tempo cinematográfico indígena, com o ponto de vista indígena, com a filosofia indígena, com o olhar indígena”.


Luiz Bolognesi, diretor de “A Última Floresta”

O diretor vem buscando ativamente fomentar esse caminho, e seu trabalho foi bem reconhecido pelo Festival Sesc Melhores Filmes deste ano. Eleito pela crítica o melhor documentário nacional de 2021 e presente na programação do evento, o longa-metragem “A Última Floresta” foi pensado por Bolognesi em colaboração próxima com a população Yanomami, que vive no norte de Roraima sob ameaça constante e crescente de mineradores que buscam invadir suas terras e destruir a região Amazônica por suas riquezas econômicas.

Mas o mais interessante do documentário – que também ganhou o prêmio do público na mostra Panorama no Festival de Berlim de 2021 – é como Bolognesi e o líder maior da aldeia, Davi Kopenawa, intercalam o registro dessas tensões com encenações das histórias da cultura do povo, em especial aquelas voltadas à sua formação. O roteiro concebido pela dupla cria um viés diferente para a narrativa do filme, que deixa de enquadrar o povo Yanomami como refém desesperado da situação para vê-lo como grupo forte que luta ativamente por seus direitos – liderados por Kopenawa, figura muito acesa na disseminação dessa mensagem.

Essa maneira diferenciada de trabalhar a questão é uma que Bolognesi nutre com orgulho: “Os caminhos até hoje foram muito feitos em parcerias entre cineastas brancos, que tem os equipamentos na mão e o conhecimento cinematográfico, e atores, roteiristas e pensadores indígenas. Essa é a maneira como a gente fez até agora, mas cada vez mais agora eles começam a participar da linguagem. Não apenas de serem os retratados e de estarem transmitindo o conteúdo, mas eles também começam a tomar conta da forma e criar a forma cinematográfica indígena”. 

O diretor ainda comenta ao blog que acredita que este caminho é o melhor e o “mais interessante” para o futuro desta produção. “Nos meus dois últimos filmes, eu procurei fazer escolhas técnicas, de posicionamento de câmera e linguagem, escutando o modo de ser, de agir, de pensar e de ocupar o dia dos povos indígenas que estava retratando, e convidei os retratados a participar da dramaturgia e das decisões cinematográficas”, diz o cineasta; “É um cinema que fica muito permeável às decisões indígenas, e eu acho que quanto mais sensível ao modo de ser dos povos originários, mais interessante fica o cinema indígena”.


Luiz Bolognesi, diretor de “A Última Floresta”

Exibido no último dia 7, “A Última Floresta” tem sua última sessão no CineSesc na próxima terça-feira, 26 de abril, às 14h30. É uma oportunidade única de prestigiar na tela grande um trabalho tão fundamental para o cinema indígena nacional. Adquira aqui seu ingresso.

Projeto “Abril Indígena” em cartaz na plataforma Sesc Digital. Foto: Divulgação.

E para quem se interessa pelo tema, o Sesc São Paulo realiza este mês o projeto “Abril Indígena”, uma programação especial que inclui bate-papos, oficinas, séries, documentários e apresentações presenciais e online voltadas à questão indígena no país. Nesta quarta edição, o projeto dá visibilidade às presenças de aldeias nos territórios onde também se localizam unidades do Sesc, destacando assim a diversidade e a identidade desses povos como cidadãos brasileiros.

A programação este ano também se expande para todo o Brasil a partir de seis documentários voltados ao projeto Abril Indígena disponíveis gratuitamente na plataforma Sesc Digital. Até o próximo dia 14 de maio, o público pode assistir os filmes “Tava, A Casa de Pedra”, “Virou Brasil”, “Nossos Espíritos Seguem Chegando – Nhe’e Kuery Jogueru Teri”, “Yãy tu nũnãhã payexop – Encontro de Pajés”, “Kupixá Asui Peé Itá – A Roça e Seus Caminhos” e “Exercício de Arquivo #2”. Todos dirigidos por nomes e lideranças envolvidos diretamente com a causa indígena, incluindo pessoas celebradas como Vincent Carelli, Sueli Maxakali e Francy Baniwa.

Quase todos os títulos em cartaz na plataforma Sesc Digital dentro do projeto Abril Indígena são co-dirigidos por pessoas indígenas, o que representa um grande avanço na representação e ocupação deste cinema dentro da produção nacional. Com o histórico cinematográfico de serem retratados ou tornados apenas “temas” nos filmes, as aldeias e os povos originários nos últimos anos começaram a pavimentar um caminho para acessar as formas de criação e invenção do cinema, por meio de projetos de registros e ensino como, por exemplo, a ONG “Vídeos nas Aldeias”. Saiba mais clicando aqui.


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