Direção no cinema: porquê esta função é importante e como ela colabora para o sucesso de um filme

27 abr 2022

Por Pedro Strazza

Quando o assunto é cinema, não demora muito para se começar a exaltar a figura do diretor. Quem nunca se pegou elogiando um filme por sua direção, afinal? 

Clássicos como “Psicose”, “2001 – Uma Odisseia no Espaço” e “O Poderoso Chefão” não seriam o que são na história do cinema se não fosse pelo trabalho de nomes como Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick e Francis Ford Coppola, e qualquer pessoa hoje não demora a apontar isso.

Mas o que constitui  o trabalho de direção? Por mais que se elogie a função e seus grandes realizadores, detectar o que exatamente diz respeito ao diretor em um filme é uma tarefa que muitas vezes se torna um desafio para quem assiste. Até porque não é difícil confundir tarefas com outros departamentos cruciais para o sucesso de uma produção, incluindo elementos mais chamativos, como o elenco e a fotografia – ou mais discretos, como o roteiro e a iluminação.

Para simplificar o entendimento, uma definição possível é a de que o diretor é responsável pela visão final de um filme, o que na prática envolve um grande exercício de coordenação. Com tantas equipes dedicadas na execução, a direção tem a difícil tarefa de organizar todas as partes para conceber a narrativa da obra, um fio que una os elementos em torno de um mesmo norte. 

Uma boa imagem que define esse trabalho é a do maestro com sua orquestra. Neste caso, busca-se encontrar uma harmonia que reúna todas as melhores qualidades dos músicos e ao mesmo tempo encontre a melodia da bela sinfonia ao centro. Já no caso da direção de cinema, os músicos são uma turma mais vasta, indo do trabalho dos atores à forma como se dará o balé de câmeras, passando ainda pelo afinamento em torno da escolha de locações, a construção dos sets de filmagem e dos figurinos, a elaboração dos diálogos e até a montagem na pós-produção. Mesmo a criação dos efeitos visuais passa pelo crivo do diretor, pois é ele quem deve decidir o que é melhor ou pior para um filme.

Direções que se destacam no 48° Festival Sesc Melhores Filmes

Bons exemplos de direção podem ser encontrados na 48° edição do Festival Sesc Melhores Filmes, incluindo os dois grandes vencedores da categoria escolhidos pelo público e a crítica do evento. Campeão dos dois prêmios de direção internacional, “Ataque dos Cães” tem como grande força o talento da diretora Jane Campion, que imprime à história de dois irmãos rancheiros um jogo de poder muito sutil que se manifesta a partir das relações de desejo que os cercam. 

Essas tensões, que dizem muito respeito ao faroeste enquanto gênero, são demonstradas na narrativa a partir de elementos específicos e se manifestam naturalmente no curso dos eventos, o que significa um trabalho redobrado dos atores, da fotografia e da trilha sonora para manifestar algo que a princípio não está lá. O clímax do filme traz à tona o esforço de Campion para viabilizar esse efeito que só o espectador é capaz de verbalizar.

Já “Marighella”, vencedor dos prêmios de direção na categoria filme nacional, chama a atenção pelo extenso trabalho para reconfigurar a narrativa predominante em torno da trajetória política do protagonista. Enquanto o roteiro se encarrega de condensar a extensa biografia de Mário Magalhães sobre Carlos Marighella em uma história de pouco mais de 150 minutos, cabe a Wagner Moura o exercício de enquadrar o homem dentro das idas e vindas da luta contra a ditadura militar, numa humanização que passa também pela militância.

Isso se dá não só no curso do filme de ação orquestrado, elaborado muitas vezes por planos-sequências e registros de câmera na mão, mas também nos momentos de maior intimidade da narrativa. É aí que Moura consegue dar vazão ao caminho tortuoso de seu personagem, contrapondo as decisões do Marighella de Seu Jorge com as consequências. A cena abaixo é bom exemplo disso: a cena é inteira tocada da perspectiva do protagonista sobre a declaração da mãe de um de seus companheiros de armas, apresentando em primeiro plano o sofrimento de quem pode perder o filho a qualquer momento.

O trabalho do diretor também vai muito além da narrativa maior, e essa atenção aos detalhes pode ser enxergada em diferentes filmes da programação do festival. Em “Não Olhe Para Cima”, por exemplo, boa parte dos méritos da comédia está na dinâmica que a direção de Adam McKay estabelece com o elenco, permitindo que atores e atrizes improvisem a vontade suas falas no set para encontrar as melhores cenas para sua sátira de fim do mundo. E isso passa por nomes gigantes como… Meryl Streep.

Os desafios da direção também envolvem o uso do orçamento disponível para realizar o trabalho, e “Annette” é um exemplo fascinante das soluções criativas que podem ser encontradas no processo criativo. Ainda que seja o filme mais caro da carreira do diretor Leos Carax, o musical estrelado por Adam Driver e Marion Cotillard ainda não tem fundos suficientes para materializar o escopo ousado de sua história de amor e fúria. Dissolve-se então a ambição no curso da narrativa e pelo trabalho corporal dos atores, com a linguagem empregada por Carax muito atenta a esses movimentos e ao exercício de fazer o espectador acreditar na marionete que é centro das atenções. Tudo com uma dose extra de ironia, como é o caso do número de abertura desconstruído “So May We Start”.

Há ainda no ofício do diretor o como determinadas decisões são executadas, em manobras que definem não apenas os rumos da obra, mas seu próprio conjunto de significados. Em “A Lenda de Candyman”, a diretora Nia DaCosta cria uma sequência tardia para “O Mistério de Candyman” a partir da gentrificação dos espaços negros, acompanhando um artista que acaba caindo nas garras do ser do título. Para refletir essa transformação e como ela afeta o curso da narrativa, DaCosta se preocupou em chamar artistas negros que pudessem registrar essa curva nos trabalhos do protagonista, aumentando assim o jogo de símbolos do filme.

Já em “Judas e o Messias Negro”, a direção de Shaka King é fundamental para o sucesso da cinebiografia, que acompanha a trajetória política de vida de Fred Hampton pela perspectiva de Bill O’Neal, o homem que entregou sua cabeça de bandeja para o FBI. Ao invés de se deixar levar pelo registro “realista”, King trabalha o puxa e repuxa de O’Neal entre as ideologias de Hampton e do FBI como um verdadeiro drama de corte ambientado no Illinois, mantendo o espectador muito consciente do jogo de poder que move todas as partes.

Por fim, há “A Última Floresta”, que redireciona o típico registro do cinema indígena ao permitir que os membros das aldeias se envolvam com a criação e a forma como terão sua identidade e história retratadas na telona. A direção de Luiz Bolognesi, porém, está longe de ser neutralizada por essa medida, pois é por ela que o filme se reorganiza para alcançar o impacto da documentação das ameaças às populações Yanomami no norte de Roraima.

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