“Marighella”: a tentativa de silenciar um filme que grita

20 abr 2022

Por Elton Telles

Filmada em 2017, a cinebiografia “Marighella” teve a sua primeira exibição em fevereiro de 2019, no Festival de Berlim, onde foi ovacionada pelo público. O seu lançamento no circuito brasileiro foi agendado estrategicamente para 20 de novembro do mesmo ano, Dia da Consciência Negra. Não aconteceu, e o filme foi colocado no limbo. À época, a Agência Nacional do Cinema (Ancine), órgão do governo federal responsável pelo fomento da produção audiovisual no Brasil, alegou que o motivo do cancelamento foi por atrasos no cumprimento dos trâmites estipulados pelo órgão. 

Eis que o filme foi adiado para maio de 2020, porém o agravamento da pandemia da Covid-19 não permitiu a sua aguardada estreia no Brasil.  “Marighella” novamente foi para a geladeira e remarcado para o primeiro semestre de 2021 – o que não aconteceu devido ao fechamento dos cinemas exibidores por tempo indeterminado.

A esta altura, a produção já havia sido exibida em diversos países dos cinco continentes, mas o imbróglio com a Ancine, aliado às dificuldades impostas pela pandemia, atrasaram a estreia do filme em exatamente dois anos, após amargar três adiamentos considerados controversos pelos produtores. Há quem aponte uma espécie de “censura burocrática”, referindo-se aos recursos negados e diversos empecilhos apresentados pela Ancine para que o filme não visse a luz do dia. 

Em diversas entrevistas, o diretor de “Marighella”, Wagner Moura, foi enfático em afirmar que o seu filme de estreia atrás das câmeras sofreu censura, durante a produção e posteriormente na distribuição. O boicote, no entanto, aguçou a curiosidade dos brasileiros. Quando finalmente estreou comercialmente no circuito, em novembro do ano passado, “Marighella” lotou sessões Brasil afora e arrastou 325 mil espectadores para as salas de cinema, classificando-se como o 2º filme nacional mais assistido de 2021. 

Tanto o público quanto os profissionais da crítica aprovaram o resultado, e a manifestação positiva ao longa se traduziu na premiação do 48º Festival Sesc Melhores Filmes. “Marighella” foi consagrado como o grande vencedor desta edição, com 8 prêmios no total, incluindo Melhor Filme, Melhor Direção para Wagner Moura e Melhor Ator para Seu Jorge, na avaliação do júri popular e da crítica especializada. 

Inspirada no livro “Marighella – O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, do jornalista Mário Magalhães, a cinebiografia narra em um só fôlego os últimos cinco anos da vida do político e guerrilheiro baiano Carlos Marighella, desde o golpe de 1964 até a sua morte trágica, em 1969, encomendada pelos mandantes da ditadura civil-militar brasileira. Paralelo à formação e atuação do grupo revolucionário na difusão de seus ideais no combate à repressão, “Marighella” reserva espaço no roteiro para momentos de foro íntimo do cinebiografado, como o romance com sua ex-companheira (papel de Adriana Esteves) e as tentativas do personagem-título de se reaproximar do filho, que foi enviado a Salvador para evitar perseguições.  

Adriana Esteves em “Marighella”. Foto: Ariela Bueno

Nestas poucas cenas, o filme encontra pouso e redimensiona a figura de Marighella, mostrando particularidades do homem comum, do sujeito dócil que escolheu abortar o plano de constituir família para lutar contra o regime autoritário. O contraste a estes esparsos momentos de alívio impera no restante da história, que focaliza Marighella e seus camaradas em ação. Assaltos a banco, a um trem em movimento, tiroteio em pleno cenário urbano e a truculência da polícia militar são dominantes. 

Na função de diretor, Moura compreende a trajetória de Marighella como um bom exemplar de ação, e utiliza diversos recursos cinematográficos para realçar o tom explosivo e caótico em seu registro. Os planos-sequências e a câmera de mão são bem utilizados em cenas-chave que deixam o espectador aos nervos na beira da poltrona, sempre à espera de que o pior possa eclodir. Na mesma medida, há situações catárticas e de vitória durante o filme que faz o público vibrar silenciosamente, como a leitura da carta escrita por Marighella em uma emissora radiofônica.

Neste misto de emoções, “Marighella” é bem calibrado no que se espera de um expoente do cinema militante e, acima de tudo, revela-se uma produção extremamente necessária nos dias atuais, um período histórico repleto de obscurantismo e incertezas tal qual os anos 1960 retratados no longa, em que a democracia e a liberdade são ameaçadas, a ponto de promoverem a censura de uma obra audiovisual. Não contavam, porém, com o grito de Marighella, que, resgatado pelo filme, ecoa até hoje. 

A última sessão de “Marighella” dentro da programação do 48º Festival Sesc Melhores Filmes será neste sábado, dia 23/4, às 14h30. Clique aqui para adquirir seu ingresso antecipadamente.

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