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Vencedor do prêmio da crítica, “Ataque dos Cães” redireciona desconstrução do faroeste para esfera íntima

Por Pedro Strazza

Gênero tradicionalmente americano, o faroeste já há muito tempo deixou de ser ancorado pela perspectiva histórica para ser entendido em sua dimensão mais mitológica. A dita expansão para o Oeste formou uma série de imagens que são perpetuadas até os dias de hoje, dos bangue-bangues entre soldados e índios às travessias do gado e seus rancheiros pelos Estados Unidos. 

Aliado ao estabelecimento dessa produção nos cinemas, se deriva de tais condições o teor revisionista dos filmes mais recentes, que têm em comum uma existência voltada à desconstrução dos mitos.

“Ataque dos Cães” é mais um exemplar instigante dessa trajetória. Vencedor do Oscar de Melhor Direção e premiado na categoria Melhor Filme Estrangeiro pela crítica e o público do 48º Festival Sesc Melhores Filmes, o longa-metragem dirigido por Jane Campion se estabelece a princípio de uma posição distanciada para aos poucos rumar em direção ao centro emocional que pauta todos os acontecimentos de sua história, voltada à relação de dois irmãos rancheiros cujas vidas são afetadas quando um deles se casa e traz a esposa e enteado para dentro da fazenda onde vivem.

A atenção aos detalhes da direção de Campion enquanto constrói essa narrativa certamente foram o que renderam ao faroeste o prêmio de melhor filme estrangeiro pela crítica. Adaptado de um livro escrito por Thomas Savage nos anos 60, a produção avança a passos lentos no registro dos embates dos personagens com o arisco Phil (Benedict Cumberbatch), irmão mais bruto da dupla. 

Benedict Cumberbatch segura buquê de flores em frente à chama de uma vela em cena do filme "Ataque dos Cães", de Jane Campion. Foto: Divulgação
Benedict Cumberbatch em cena de “Ataque dos Cães”. Foto: Divulgação

A trilha mínima de Johnny Greenwood e a fotografia seca de Ari Wegner se encarregam de construir o mundo daquela parte de Montana pela via dos desentendimentos, organizados aqui devidamente entre relações de poder e, mais tarde, do desejo.

Tudo partindo da investigação da figura ocupada por Phil, que começa da posição de vilão nos afrontes seguidos da cunhada Rose (Kirsten Dunst), a ponto de levá-la à loucura e, depois, aos maus caminhos do álcool. Ao longo da trama, porém, o espectador passa a entender que a violência dos atos do rancheiro tem uma raiz na vulnerabilidade. O contato maior do filho de Rose, Peter (Kodi Smit-McPhee), com o vaqueiro revela que o protagonista nutre uma afeição muito particular por um mundo que está essencialmente em seu crepúsculo.

Tudo isso é nutrido pelo passado de Phil com Bronco Henry e sua sexualidade homossexual reprimida, e é a partir daí que se revela a desconstrução da imagem do vaqueiro pela ótica da masculinidade. Nas montanhas da Nova Zelândia, Campion desfaz a mítica do Velho Oeste por um caminho que escapa da deterioração característica (seja nos espaços externos ou internos, o cenário se encontra bem preservado) e se adequa aos conformes da paixão.

Essa revisão do gênero também é muito adequada se considerar que se trata de um filme de Campion, diretora que desde o premiadíssimo “O Piano” trabalha a questão da atração por um cinema de pulsões. “Ataque dos Cães” inclusive refaz o triângulo de relações intermediado por uma parte externa do vencedor da Palma de Ouro de 1993, mas agora refletindo na história o sentimento de fim que se manifesta no lugar onde os acontecimentos se passam.

É também uma narrativa muito bem imprimida pelo elenco, aliás, liderado por um Cumberbatch que atua na via contrária de seus papéis típicos ao externalizar seu acuamento de forma gradual, refletindo nos personagens ânsias e frustrações pelo módulo da ira. Já a Jesse Plemons, Kirsten Dunst e Kodi Smit-McPhee resta dar vida ao salmo que é central no enquadramento ambíguo de todos os gestos: “Livra-me da espada, livra minha vida do ataque dos cães”.

Exibido na última segunda (11), “Ataque dos Cães” retorna à programação do festival nesta sexta-feira, 15 de abril, às  17h30. Com todos os prazeres que só a tela do cinema pode oferecer, a alta imersão da experiência proposta por Campion, sozinha, já faz valer o ingresso.

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