A chance rara de rever o O Último Imperador na tela grande e em 3D

19 abr 2019

O que pode ser mais memorável do que assistir na tela grande a O Último Imperador, um dos filmes mais épicos da história do cinema, vencedor de nove Oscars (todos aos que concorria), quatro Globos de Ouro, três Baftas, além de tantos outros prêmios pelo mundo? É assistir a este filme em versão 3D e, mesmo mais de 30 anos após seu lançamento, ter uma experiência nova ao rever os 145 minutos do longa de Bernardo Bertolucci sobre a saga de Aisin-Gioro Puyi, o último imperador da China Imperial, da Dinastia Qing.

A sessão do clássico em 3D ocorre nesta sexta-feira, às 21 horas, no CineSesc, como um dos destaques da seleção de clássicos do 45º Festival Sesc Melhores Filmes, que nesta edição conta ainda com Asas do Desejo (de Wim Wenders), Ran (de Akira Kurosawa), Bagdá Café (de Percy Adlon), Bye Bye Brasil (de Cacá Diegues) e Pixote, A Lei do Mais Fraco (de Hector Babenco). Gustavo Cruz já elencou por aqui alguns motivos para ver alguns desses clássicos no CineSesc.

Primoroso em sua reconstituição de época, o longa retrata a vida de Puyi para muito além dos registros meramente históricos. Com roteiro de Bertolucci e Mark Peploe, o filme mergulha também na intimidade do imperador que cresceu isolado na Cidade Proibida, preso em sua própria fortaleza, apartado de uma realidade em ebulição da China do começo do século 20.

Para retratar a infância, a adolescência e o início da fase adulta de Puyi, Bertolucci fez questão de filmar em locações reais e se tornou, então, o primeiro cineasta do Ocidente a ter permissão do governo chinês para filmar dentro da Cidade Proibida.

Preso em sua própria fortaleza

A trama que se inicia com as memórias que Puyi conta aos oficiais da prisão em que ele se encontra na Manchúria, em 1950, passa pelo dia em que, aos três anos, foi tirado da mãe para ser coroado, em 1908; a Proclamação da República em 1911, a Segunda Guerra Mundial, os anos 1950 e 1960.

Mais que dados históricos, o filme retrata o desafio do Imperador Xuantong (como também era chamado) para atravessar a história. Criado como um ser quase divino, ele se viu diante de sua deposição ainda adolescente pelas autoridades da Revolução Comunista. Adaptou-se a um novo modo de vida, mas foi somente aos 24 anos que finalmente deixou a Cidade Proibida e descobriu que fora da proteção opressiva de seus muros a vida era muito mais complexa.

Imaturo, acabou se tornando um bon vivant, um playboy, como ele mesmo ressalta em sua autobiografia “De Imperador a Cidadão”, que inspirou o filme. Tempos depois, quando a Manchúria (sua terra natal) foi invadida pelos japoneses, em 1931, acabou tendo importância estratégica e exerceu o papel de imperador fantoche. Com o final da Segunda Guerra, foi feito prisioneiro pelos soviéticos e devolvido à China como prisioneiro político em 1949. Foi enviado para Fushun, um “campo de reeducação para criminosos de guerra”, onde viveu até o final dos anos 1950, quando ganhou a liberdade. Morreu em Pequim, como um cidadão comum, em 1967, depois de ter trabalhado como jardineiro e no Jardim Botânico da cidade e ter sido bibliotecário da “Conferência Consultiva Política do Povo Chinês”.

Para levar esta verdadeira epopeia ao cinema, Bertolucci comandou uma produção milionária, financiada pelo  produtor britânico Jeremy Thomas, capaz de transportar o mais exigente dos espectadores para cada um dos períodos retratados em cenários pelos quais Puyi passou e viveu.  
Considerada uma volta de Bertolucci ao grande cinema, O Último Imperador é uma obra-prima, que merece ser vista e revista e que ganha mais nuances com a tecnologia 3D. Como observou o próprio diretor, as camadas, tanto de cenários, figurinos, atuação e história do filme são tantas, que a profundidade do 3D faz com que o espectador mergulhe mais ainda na saga de Puyi.

A fotografia deslumbrante de Vitorio Storaro não só ressalta as belezas de uma das fases mais conturbadas da história da China como inserem o público na atmosfera da época. Não por acaso, Storaro também levou o Oscar de Melhor Fotografia. O filme ainda garantiu a Bertolucci o Oscar de Melhor Direção, de Melhor Roteiro Adaptado (dividido com Peploe), Melhor Direção de Arte, Figurino, Edição, Som, Trilha Sonora e, claro, Melhor Filme.

por Flavia Guerra

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