Representatividade no cinema de herói: “O cinema é bem atrasado em relação aos quadrinhos.”

24 abr 2019

Ao sair da exibição do filme Pantera Negra, de Ryan Coogler, a imagem que imediatamente veio na cabeça de Viviane Pistache foi a da Beyoncé. Para ela, o primeiro filme de super-herói da Marvel com elenco e enredo majoritariamente negro é um grande divisor de águas pois, assim como a cantora norte-americana, é muito bem sucedido no esforço de aplicar um tratamento pop a debates políticos, citando movimentos sócio-políticos como o dos Black Panthers e gêneros cinematográficos como o Blaxploitation. “O filme conseguiu sintetizar elementos históricos neste sentido”, afirmou a roteirista e crítica durante a última edição do Cinema da Vela, realizada na terça-feira (23), no CineSesc, como parte da programação do 45º Festival Sesc Melhores Filmes.

Com a participação também da jornalista e documentarista Flavia Guerra e do diretor e crítico Gabriel Carneiro, o bate-papo discutiu o tema da “Representatividade no Cinema de Herói” e observou os avanços em relação à diversidade de personagens e do formato de narrativas desta que, atualmente, é a categoria mais lucrativa para a indústria cinematográfica.  

Segundo Flavia, que tinha acabado de sair da cabine de imprensa do último capítulo da saga dos Vingadores, é impressionante como, de um filme para o outro, já podemos notar progressos na questão da representatividade, não apenas pela maior importância de super-heroínas como a Capitã Marvel como também pela presença de heróis que fogem dos padrões deste tipo de personagem. “A gente consegue perceber que os roteiristas conversaram sobre isso”, afirmou.

Doutora em Psicologia, Viviane pontuou que, apesar das mudanças, ainda estamos em um estágio muito inicial da elaboração das gramáticas que permitem transportar estas representações para o cinema, afirmando que, hoje, o que presenciamos é uma espécie de política de redução de danos. “A gente vem de um século de construções estereotipadas.”

No caso de Pantera Negra, por exemplo, ela chamou a atenção para o fato da homossexualidade de alguns personagens ter sido apagada no decurso da adaptação da história para a grande tela, da mesma forma que foi omitida a ocasião em que Shuri, irmã do herói e rei T’Challa, chegou a assumir o trono de Wakanda. Embora tenha considerado que outros riscos poderiam ter sido tomados, a crítica concordou que a produção configura muitos passos além – tímidos, porém possíveis dentro da narrativa do filme. “No final das contas, o saldo é positivo”, avaliou.

Foto: Alf Ribeiro

Reflexo da realidade

Foi nos anos 1970, com a produção dos primeiros filmes do Super-Homem, que o cinema de herói alcançou a primeira linha de Hollywood. De lá para cá, surgiram novas facetas para o entendimento destes personagens, que possibilitaram que o grande público conseguisse se identificar com a imagem do herói.  “Ao longo das décadas eles foram mais humanizados”, explicou Flavia.

Sobre a rejeição da ideia de super-heróis enquanto divindades, Gabriel Carneiro defendeu que a ficção científica, gênero do qual derivam estas histórias, sempre foi o estilo que mais traduziu a realidade. Indicando o exemplo de figuras como o próprio Pantera Negra e suas referências à luta pelos direitos civis, e o Homem-Aranha, cuja trama faz menção aos efeitos da radioatividade, o crítico apontou que já há um tempo os super-heróis são um reflexo direto dos dilemas e das inseguranças da sociedade. “A diferença é que hoje em dia tem muito mais gente interessada em consumir este tipo de narrativa”, comentou.

Para ele, outro ponto é que o debate sobre representatividade que assistimos agora nas telonas já está muito mais consolidado na versão dessas histórias nos quadrinhos. “O cinema é bem atrasado em relação aos quadrinhos”, ressaltou Gabriel, que atribuiu aos gigantescos orçamentos de produção e a cautela das produtoras com relação ao retorno financeiro uns dos motivos deste grande intervalo.

Neste sentido, o diretor informou que as séries de TV têm atuado como um importante termômetro, referindo-se ao caso de programas como O Mundo Sombrio de Sabrina, no qual um dos personagens principais é negro e pansexual. De acordo com Viviane, essa discussão é a prova de que, seja na televisão ou no cinema, ainda existem infinitas possibilidades de invenção. “Tem muita coisa para ser escrita”, declarou.  

Foto: Alf Ribeiro
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