Laís Bodanzky: “Eu não faço um filme pro primeiro fim de semana. Eu faço um filme!”

21 abr 2018

Definir o trabalho de cineastas como Laís Bodanzky é tarefa quase impossível. Dona de uma cinematografia rica e plural, a diretora passa por uma ótima fase desde que lançou seu mais recente longa: Como Nossos Pais. O filme foi vencedor de diversos prêmios internacionais e nacionais, tais como seis Kikitos no Festiva de Gramado 2017, entre eles melhor filme, direção, ator e atriz, além de atriz coadjuvante e os de Melhor Roteiro (para Laís e Luiz Bolognesi) e de Melhor Atriz (dividido entre Maria Riberiro e Clarisse Abujamra) segundo júri da crítica do 44o Festival Sesc Melhores Filmes.

Mas talvez quem melhor resumiu seu cinema foi a própria Laís. “Eu não faço um filme pro primeiro fim de semana. Eu faço um filme!”, declarou ela em bate-papo com o público do CineSesc realizado na primeira semana do festival.

Por isso, podemos entender que a trajetória da cineasta não é feita de filmes que arrasam os quarteirões assim que estreiam, mas sim de trabalhos que perduram e mantêm sua relevância por anos a fio. Isso pode ser observado desde seu primeiro longa, Bicho de Sete Cabeças, passando por Chega de Saudade, e até seu mais recente, Como Nossos Pais.

Laís ainda foi além e cravou: “Eu sou a cineasta do filme médio”. E por filme médio entenda-se o que dialoga com o público, que tem, acima de tudo, um olhar humanista sobre seus personagens e sobre o mundo. Por filme médio também podemos dar o nome de “filme do meio”, aquele que não é o blockbuster típico, que recorre a muitas cenas de ação e lançamentos com centenas de cópias, e nem o filme dito de arte, pensado para um público cinéfilo acostumado a narrativas mais heterodoxas. O filme do meio, assim como os de Laís, tem narrativas que buscam o diálogo, tratam de dramas muito humanos e atemporais. Essa espécie de filme tampouco bate recordes de bilheteria, mas, mesmo depois de sair de cartaz, continua sendo visto ao longo dos anos, seja na TV ou em serviços de video on demand (VOD).

Orgulhosa de sua cinematografia, Laís sabe detectar temas que se encaixam perfeitamente ao filme do meio. Não por estratégia de mercado, obviamente, mas sim porque são estas questões tão humanas que lhe interessam.

Já em Bicho de Sete Cabeças, sua estreia no longa-metragem em 2001, ela ousou apostar em uma história a qual empresa nenhuma queria associar sua marca. “Mas foi um longa importante para a sociedade pelos temas que ele discutia, sobre a saúde mental”, comentou a diretora quando indagada pelo jornalista Cunha Jr., que mediou a conversa com o público, sobre os desafios de viabilizar o projeto e seu impacto quando lançado.

“Ele foi abraçado pelo movimento anti-manicomial e circulou também dentro do governo. Na época, estava tramitando a Lei Paulo Delgado (que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental) e se tomando consciência da não-internação”, relembrou Laís. O filme foi como a cereja do bolo para a luta anti-manicomial. Foi um projeto com uma proposta engajada. O movimento ganhou força mas a realidade não mudou totalmente no Brasil. A questão persiste”, completa ela, provando que seus filmes não envelhecem, mas amadurecem muito bem e persistem. Ainda hoje Bicho de Sete Cabeças é atual, relevante tanto temática quanto cinematograficamente.

O longa seguinte de Laís, Chega de Saudade, surgiu de uma vontade dela e do roteirista Luiz Bolognesi de realizar um filme com múltiplas vozes, com personagens secundários bem desenvolvidos. E assim a noite cheia de poesia e também dureza de uma típica casa de baile paulistana, onde ela rodou o longa, ganha a presença de Cássia Kiss, Tônia Carrero, Betty Faria, Paulo Vilhena, Clarisse Abujamra, Maria Flor, Stepan Nercessian, entre tantos outros.

Chega de Saudade é um filme sobre envelhecer, mas também sobre a juventude. Sobre amar na velhice e quando se é jovem. Sobre a vida, um pequeno-grande filme coral, que merecidamente levou os Troféus Candango de Melhor Direção e Melhor Roteiro, e Melhor Filme Segundo o Júri Popular do Festival de Cinema de Brasília 2007.

As Melhores Coisas do Mundo – O maior projeto

Menos de dois anos depois de lançar Chega de Saudade, Laís  já estava filmando novamente. E daquela vez, em foco estava a juventude e suas questões nada simples. Segundo a diretora, As Melhores Coisas do Mundo foi seu maior filme. “Tecnicamente foi o mais elaborado. Fizemos muita pesquisa, ouvimos muitos adolescentes. Queria trazer o frescor da escola viva acontecendo”, explicou.

Para isso, a diretora realizou com Bolognesi e sua equipe uma extensa pesquisa para o roteiro, que ela emendou com a produção e a busca pelo elenco. O protagonista da história, Francisco Miguez (Mano), veio desta fase da pesquisa. “Eu e Luiz (Bolognesi) conversamos com adolescentes que viviam num universo próximo do personagem.  Fazíamos conversas com grupos de escolas o mais diferentes possíveis. E por acaso o casal de protagonistas acabou tendo a menina de um colégio e o Francisco, que era de outro. Perfis super diferentes de colégios. Mas o que importava é que as questões da adolescência são universais”, observou a cineasta.

Para se chegar tanto aos protagonistas quanto o restante do elenco jovem do filme, Laís conta que realizou mais de 2 mil entrevistas individuais. “As conversas eram deliciosas. A gente perguntava coisas do tipo ‘Que música você gosta de ouvir?’ e a primeira resposta era: ‘Eu sou eclético’. E a segunda era: ‘Beatles’. E eu não entendia como aquela turma podia gostar de Beatles!”, relembra.

Foi então que, para a trilha sonora, decidiu contar com uma canção dos Beatles. “E a gente chegou a Something, que era a única que o Michael Jackson, que detinha os direitos das músicas dos Beatles, não tinha comprado. Mesmo assim era cara e foi a única música que pudemos ter no filme”, conta ela. Para o restante da trilha, Laís e Fabiano Gullane, produtor do filme, abriam concurso para bandas de garagem. “E recebemos coisas incríveis. O som veio desta turma adolescente.”

O resultado de tanto apreço pela preparação e cada detalhe do longa deu resultado. As Melhores Coisas do Mundo não só recebeu inúmeros prêmios como até hoje é amado pelo público adolescente. Entre as premiações para o longa, estão como oito troféus no CinePE 2010, incluindo Melhor Filme, Direção, Roteiro, Ator (Francisco Miguez) e Fotografia; além de Melhor Filme do Festival do Recife e os de Melhor Direção e Roteiro pela Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA 2010).

O atual e universal Como Nossos Pais

Seu projeto seguinte foi Como Nossos Pais, que calou fundo nos corações e mentes de mulheres de todo o mundo. O longa começou sua carreira de lançamento na Mostra Panorama de Festival de Berlim 2017, levou o prêmio do júri popular do 19º Festival Du Cinéma Bresilien de Paris – França (2017), a melhor direção e melhor atriz (para Clarisse Abujamra) no 21º Festival de Cine de Punta del Este – Uruguai (2018) e o prêmio do júri popular do FestIN Lisboa – Portugal (2018). Isso sem contar que no Brasil, entre outras premiações e participações em festivais, foi o grande vencedor do Festival de Gramado 2017, onde levou os Kikitos de Melhor Filme, Direção, Montagem (Rodrigo Menecucci), Melhor Atriz (Maria Ribeiro), Melhor Ator (Paulo Vilhena) e Melhor Atriz Coadjuvante (Clarisse Abujamra).

Não por acaso, Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra também dividiram o prêmio de Melhor Atriz no 44º Festival Sesc Melhores Filmes segundo a crítica, que também deu a Laís e Luiz Bolognesi com o prêmio de Melhor Roteiro.

É exatamente o roteiro de Como Nossos Pais que marca uma nova fase importante da carreira de Laís. Se nos outros longas, Bolognesi assinava a autoria solo dos roteiros, neste último projeto a narrativa começou por Laís. “Realmente esta história tinha que ser escrita por mim. Ao todo, foram dez versões. Eu comecei a escrever e ele revisava, num processo que foi muito rico para mim”, contou ela.

O esmero com o roteiro que marca os outros projetos da diretora se manteve em Como Nossos Pais também no momento de convocar um especialista para cuidar do doctoring (de script doctor, especialistas e/ou roteiristas contratados para revisar, co-escrever ou reescrever roteiros de cinema e TV) do projeto. Para isso, Laís convidou o cineasta argentino Daniel Burman (de O Abraço Partido e O Décimo Homem). “Eu já tinha feito um curso de roteiro com ele, que é um excelente professor. Ele desenvolve muito bem personagens”, relembrou Laís.

De fato é na força dos personagens que Como Nossos Pais encontra um grande lastro. Ao retratar os desafios cotidianos da personagem Rosa (Maria Ribeiro), uma mulher cuja batalha diária de equilibrar as forças entre família, trabalho, relacionamento e seus sonhos, o longa projetou na tela as angústias de mulheres de classe média de todo o mundo.

Rosa quer romper com os padrões de uma sociedade que diz a ela a todo momento para ser praticamente perfeita, moderna e sem falhas, mas, ao mesmo tempo, que anula seus desejos pela família e pelo marido. Mas  quebras as amarras cotidianas e que na maioria das vezes passam desapercebidas exige uma pequena-grande revolução em sua vida. E na vida de mulheres de Berlim ao Uruguai, de Lisboa ao Brasil.

“Acompanhei a carreira do filme em vários festivais pelo mundo. E vi que as mulheres estão unidas não só para ocupar novos papeis nos filmes, mas também nas equipes, na crítica. Em cada pedacinho da cadeia da indústria do cinema todas as mulheres estão em um movimento de tomada de consciência de que a gente precisa ter espaço de liderança e de fala. E trazer novas mulheres”, comentou Laís.

Em um ano em que o papel da mulher na sociedade e no cinema internacional foi amplamente discutido e em que tantos movimentos de afirmação e de demanda de direitos foram deflagrados, Como Nossos Pais encontrou terreno fértil para ser visto e, tão importante quanto, debatido. 

Em 2017, a ação e a colaboração entre mulheres foi tamanha e sua força se comprova desde os grandes movimentos até nos pequenos, como o set de Como Nossos Pais. Sem a interação perfeita entre Maria Ribeiro, que entrou muito cedo para o projeto e acompanhou várias fases, e Clarisse Abujamra, escalada para o papel da mãe de Rosa quando o filme já iniciava suas filmagens, o longa não teria a mesma potência. O talento das duas atrizes sob a direção firme de Laís resultou em uma combinação memorável.

“Neste sentido, o filme nasceu em um momento muito feliz, pois já estava pronto. Foi exibido neste momento. A ideia nasceu há quatro anos quando a mulher não era tema nem no audiovisual”, contou Laís, que começou a desenvolver o projeto há mais de quatro anos. 

 “Acho que isso já estava no ar, como uma panela de pressão, mas a gente não falava entre nós. Estava pensando em contar uma história sob um olhar muito particular. E comecei a notar que todas as mulheres ao meu redor éramos tratadas como minoria, sendo metade do planeta. E a gente achava isso normal. Não devemos aceitar isso nem na política, nem na sociedade e nem no cinema”, analisou Laís, resumindo com maestria um momento único da história. E o cinema, claro, não poderia estar fora desta revolução.

por Flavia Guerra

(Foto: Aline Arruda)

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