Fotografia no cinema: a narrativa visual construída pelo olhar

05 maio 2022

Por Pedro Strazza

Quando o assunto é cinema, a fotografia geralmente é o primeiro elemento a ser elogiado em um filme. “A fotografia é linda” não deixa de ser um elogio recorrente em qualquer discussão, afinal, muitos acreditam que a estética seja o elemento mais importante de qualquer produção que se preze cinematográfica.

Mas ainda que grandes clássicos como “Cidadão Kane”, “Laranja Mecânica” e “Lawrence da Arábia” se beneficiem de fato das visões estupendas e enquadramentos magníficos, suas respectivas cinematografias não se guiam exclusivamente pela plasticidade do que pode ser obtido por uma câmera. O trabalho da fotografia envolve o esforço de fabricar uma narrativa visual, transportando para a tela aquilo que nenhuma palavra pode verbalizar ao público que assiste ao filme.

Isso inclui algumas várias responsabilidades. Além da escolha de lentes e câmeras para cada cena, o diretor de fotografia decide junto do diretor questões como iluminação e o posicionamento de câmera e dos objetos de cena, o que inclui na ficção o trabalho direto com os atores e atrizes escalados. É o que define a mise en scène e o blocking, aliás: enquanto o primeiro diz respeito à organização geral de todos os elementos de uma cena, o segundo define a forma como a câmera organiza todos a partir de sua perspectiva – que será, também, a do público.

A partir daí, cada decisão importa para a criação, porque define também a forma como será guiado o filme. Para Adrian Teijido, diretor de fotografia de trajetória celebrada, o importante nessa hora é lembrar que tudo precisa ser orientado pela proposta inicial.

“Eu sempre costumo dizer que a fotografia não pode andar sozinha; ela tem uma intenção, e a intenção principal é contar a história”, comenta o  diretor ao blog. Ele ainda destaca a importância do objetivo sentimental por trás de cada plano: “Tudo que a gente faz na cinematografia é feito para ajudar a criar uma emoção, uma sensação. Quando eu leio o roteiro, eu gosto de entender conceitualmente qual a mensagem que tem que ser transmitida para o espectador naquela sequência. É amor? É tensão? É medo? É o que? Essas emoções são o que eu tenho que colocar na minha linguagem cinematográfica para tentar passar isso ao espectador”.


Adrian Teijido, diretor de fotografia de Marighella

O trabalho de Teijido no departamento foi muito celebrado na edição mais recente do Festival Sesc Melhores Filmes, onde recebeu o prêmio de melhor fotografia na votação do público por “Marighella”. Com forte carga política, a cinebiografia de Carlos Marighella dirigida por Wagner Moura chama a atenção visualmente pela referência demarcada no documentário, com muitos planos filmados com câmera na mão por Teijido e sua equipe.

Além de confirmar essa influência, o diretor de fotografia também relembra ao blog a ampla colaboração que ele teve com outros departamentos para construir essa narrativa que foi tão admirada pelo público do festival. “Quando nós começamos a pré-produção, o Wagner expressou que gostava de uma linguagem de documentário, de plano-sequência. A gente estabeleceu esse conceito com o Wagner e o Fred Pinto, o diretor de arte do filme, e aí nós começamos a ver várias referências, tivemos uma pesquisa muito grande de referências de época, de imagens reais, e uma pesquisa muito grande de filmes da época”, diz Teijido, que cita produções políticas e dirigidas por Costa-Gravas entre as influências e a necessidade de trazer o público para dentro dos acontecimentos: “A gente entendeu rapidamente que a gente queria que o filme tivesse uma linguagem de documentário, que não parecesse uma coisa romanceada”.

Adrian Teijido, diretor de fotografia de Marighella

Fotografias que se destacam no 48° Festival Sesc Melhores Filmes

Além de “Marighella”, vários outros filmes na programação do festival trazem à tona a importância da fotografia na construção de uma obra cinematográfica. É o caso de “Deserto Particular”, vencedor do prêmio da crítica na categoria e que constrói dois mundos diferentes nas duas regiões onde se passa a história. Dessa forma, a fotografia de Luis Armando Arteaga reflete as sintonias específicas de seus protagonistas dentro da história de amor que se revela aos olhos do espectador.

O trabalho da fotografia também envolve muitas vezes o ritmo de uma narrativa, mesmo esta sendo uma tarefa da montagem. Dois filmes da programação do Sesc Melhores Filmes de 2022 demonstram muito bem isso. O primeiro é “First Cow – A Primeira Vaca da América”, onde a fotografia de Christopher Blauvelt dimensiona o registro poético e ao mesmo tempo duro do faroeste dirigido por Kelly Reichardt a partir de longos planos de cores quentes e tom similar à sépia. Somados à montagem mais espaçada, típico dos filmes da diretora, os vazios da fotografia criam a sensação de um mundo ainda em formação e a ser descoberto por público e personagens.

Já em “Amor, Sublime Amor”, a fotografia de Janusz Kamiński é crucial para a alta velocidade do musical dirigido por Steven Spielberg. Além das cores brilhantes ressaltadas em pontos focais múltiplos e específicos, a câmera muitas vezes é posicionada no meio das coreografias e botada sobre trilhos, o que dá à narrativa ainda mais dinamismo e fluxo para os duelos, confrontos e romances da clássica história de amor e fúria.

A fotografia pode aumentar a tensão de uma cena para o público. Em “7 Prisioneiros”, por exemplo, a câmera de Germano de Oliveira muitas vezes é usada na mão não apenas para aproximar o público da história de escravidão contemporânea, mas para captar o suspense que muitas vezes se manifesta na situação de rapto aos poucos descoberto. O clipe abaixo é bom exemplo disso:

Por fim, o bom trabalho de fotografia pode acontecer tanto no dimensionamento máximo e mínimo de uma história. Em relação ao último, “Ataque dos Cães” de Jane Campion é muito favorecido pelo trabalho da cinematografia de Ari Wegner, que registra nos planos gerais o universo pequeno do faroeste na imensidão da região. A relação particular com objetos também realça isso: nesses momentos, entende-se ainda mais o jogo duplo que se desenrola ali.

Já em “Duna” o objetivo é o oposto. Para dar conta da visão maximalista de Denis Villeneuve, o diretor de fotografia Greg Fraisier usa as câmeras Imax para registrar os grandes espaços vazios das cenas e, em conjunto com o time de efeitos visuais, destacar a magnitude dos elementos mostrados no épico de ficção-científica. Com as cores pálidas, o resultado é o registro de um mundo frio e árido, cujos perigos podem ser pressentidos pelo público em cenas diurnas e noturnas. O trabalho rendeu a Fraisier o Oscar de fotografia deste ano.


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