“É possível fazer cinema se não for por um prisma pessoal?”

30 abr 2019

Toda vez que assiste à exibição de um filme, Cristiano Burlan descobre mais sobre o realizador do que sobre a própria obra. “É possível fazer cinema se não for por um prisma pessoal?”, provocou o diretor e roteirista durante o bate-papo realizado na segunda-feira (29), no CineSesc, como parte das atividades do 45º Festival Sesc Melhores Filmes.

Cinéfilo declarado e dono de uma extensa coleção de livros e DVDs, Burlan certamente poderia passar horas falando sobre cinema, compromisso que ele não consegue encarar como uma profissão. “Você vai fazer filmes porque vê filmes”. E é com base em todo este repertório que o diretor defende que as escolhas e o produto final de um filme dizem muito mais sobre quem grava do que sobre quem está na frente das câmeras. “Fazer filme é sempre uma exposição”, declarou.

Citando grandes cineastas como Glauber Rocha, Ingmar Bergman e Luchino Visconti, Burlan afirmou que, em bons trabalhos cinematográficos, é possível enxergar a pessoa do diretor ao lado de cada cena. Neste sentido, ele rejeita a distinção entre ficção e documentário criada pelos festivais e pelo mercado audiovisual porque, em ambos os gêneros, existe a mesma responsabilidade moral e ética no ato de filmar. “Para mim, é uma coisa só”.

Burlan acredita que o primeiro cuidado do diretor deve ser com o ator que, em geral, está em uma condição extremamente exposta. “Não acho natural filmar alguém”, confessou, acrescentando que a câmera é, na verdade, um objeto muito agressivo. No caso dos documentários, aliás, ele disse que esta situação ainda é mais cruel, já que o discurso do personagem pode ser facilmente dominado para fazer parte de determinada narrativa. “Não consigo ser um diretor manipulador”, assegurou.

Outro grande pecado apontado pelo realizador é não respeitar o material capturado durante as gravações. “O filme é aquilo que você filmou”. Autor de três documentários que retratam os assassinatos de seu pai, irmão e mãe – Construção (2006), Mataram Meu Irmão (2013) e Elegia de um Crime (2019), respectivamente – Burlan explicou que sempre tomou muito cuidado na hora de pensar os filmes, contando que foram decisões muito difíceis tanto estética quanto comercialmente. “Nem tudo pode ser mostrado”.

Foto: Aline Arruda

Morte como ato político

Além da chamada Trilogia do Luto, a morte também está presente no cinema de Burlan no filme Antes do Fim, que integra a programação do 45º Festival Sesc Melhores Filmes. Resultado de um encontro entre o diretor, o crítico e cineasta Jean-Claude Bernardet e a atriz e realizadora Helena Ignêz, a produção aparentemente é sobre suicídio, mas não é. Segundo Burlan, a obra discorre sobre a morte como a possibilidade de libertação e também sobre o livre arbítrio do ser humano.  

Na história, Jean decide planejar sua morte conscientemente e, para isso, conta com a ajuda de Helena para um suicídio a dois. Durante o preparo do funeral, no entanto, a dupla se dá conta de que, antes do fim, ainda há uma vida inteira pela frente.

O enredo do filme traça um paralelo com vida do próprio Bernardet, que decidiu interromper as sessões de radioterapia para o tratamento de um câncer como uma forma de ato político. “Ele fala da morte como se fosse um espetáculo”, contou o diretor. Protagonista, ele mesmo, de uma trajetória repleta de episódio trágicos e momentos de redenção, Burlan falou que literatura, o teatro e o cinema foram as suas ferramentas para escapar do ciclo de pobreza e violência da realidade em que cresceu. Apesar desta vivência, o realizador concluiu que as suas obras não são uma espécie de terapia. “O que importa é o filme, não sou eu”.

Foto: Aline Arruda


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