Diversidade no cinema: a construção de um novo cinema

19 abr 2018

“Nossa obrigação é contar estas histórias que se perderão com o tempo, apontar a câmera e dizer para as novas gerações que existia uma luta de resistência que vem de muito tempo atrás.”

Assim, durante o Cinema da Vela – Diversidade e Gênero no Cinema, realizado no CineSesc, o cineasta René Guerra resumiu com precisão o ofício de ser um diretor que narra histórias de personagens como Cris Negão, Phedra D. Córdoba, Divina Núbia, Greta Star, Roberta Gretchen, entre tantas outras, em filmes como o consagrado curta Quem Tem Medo de Cris Negão? (sobre a travesti Cristiane Jordan, ou Cris Negão) e como Guigo Offline, longa sobre um adolescente que descobre, em uma viagem de família, a homossexualidade do pai e que levou o prêmio de Melhor Longa na Mostra Competitiva Brasil do Festival Mix Brasil 2017. 

René participou do encontro com os também cineastas Lufe Steffen e Cláudia Priscilla, que mediou o debate e que em fevereiro deste ano recebeu o Teddy Award no Festival de Berlim pelo documentário Bixa Travesty, codirigido com Kiko Goifman e que retrata a trajetória de Linn da Quebrada. Também em Berlim, outro longa de temática LGBTQI foi premiado com o Teddy: Tinta Bruta, de Filipe Matzembacher e Marcio Revlon.

Diante da profusão de títulos nacionais e internacionais que discutem a diversidade de gênero no cinema atual, a conversa foi um dos encontros especiais do 44o Festival Sesc Melhores Filmes. Não por acaso, a seleção dos mais votados pelo público e também a lista dos premiados por crítica e público contam com títulos como Divinas DivasCorpo ElétricoMoonlight – Sob a Luz do LuarMeu Corpo é PolíticoUma Mulher Fantástica.

Como observado pelo cineasta Marcelo Caetano, diretor de Corpo Elétrico, em conversa para o podcast especial do Sesc sobre diversidade no cinema, do qual também participou a atriz e diretora Julia Katharine, a produção de filmes GLBTQI aumentou muito, mas ainda é pouca diante das centenas de filmes que são produzidos e lançados todos os anos.

Muito por isso, a importância de se contar histórias que tratem da diversidade e da luta por direitos civis dos LGBTQI é crucial no cinema contemporâneo. “Como Judith Butler (filósofa norte-americana) comentou quando esteve no Brasil pela primeira vez, é suportar a fratura para fazer filmes que tem alguma forma de significância para suportar o outro”, observou René. 

O que é Cinema Queer?

Diante disso, não só a relevância do Cinema Queer foi debatida por René, Claudia e Lufe, mas também a própria definição do termo.

“O que seria o cinema Queer? Difícil ter uma resposta exata. Mas faço os filmes que acredito que precisam ter suas histórias contadas. Eu acho mais interessante fazer filmes sobre estes personagens invisíveis”, comentou Lufe. “Claro que é legal ver um filme sobre coisas mais padronizadas, mas é legal ver coisas diferentes. Como o cinema já é super difícil, já é uma batalha, então é preciso falar sobre o que se quer de fato. Não tem que racionalizar muito”, completou ele, que dirigiu filmes como A Volta da Pauliceia Desvairada e São Paulo em Hi-Fi, além de curtas como Baile de Formatura.

Para Lufe, a questão da invisibilidade envolve a oportunidade de que transexuais também possam dirigir seus próprios filmes. “Existe a discussão do lugar de fala. Neste momento a gente está neste abismo. Daqui 30 anos a gente nem vai ter mais discussões como esta. Vai estar tudo tão natural que não vai ser mais novidade”, observou ele, que para a TV também escreveu e dirigiu a série documental Cinema Diversidade, sobre o cinema LGBTQI no Brasil, cuja primeira temporada foi ao ar no canal a cabo Prime Box Brasil entre dezembro de 2017 e fevereiro deste ano.

Sem respostas definitivas, mas com urgência

Já René pontuou que Cinema Queer é um cinema que ainda não tem muitas respostas, mas que um processo dinâmico, feito de incertezas vivas. “Quanto mais a gente lê, mais dúvida a gente tem porque basicamente se o Cinema Queer ficar estanque ou se virar uma regra, a gente vai estar traindo o próprio movimento”, comentou ele, que, entre outras produções, dirigiu Vaca Profana, que narra a história de uma travesti que quer se tornar mãe. O filme foi eleito o melhor curta do júri popular do Festival do Rio 2017.

Segundo o diretor, há uma urgência em se filmar, mesmo que não haja respostas definitivas, pois a história está conhecendo agora. “Esta urgência existe porque as pessoas estão morrendo e não apenas de forma natural. A gente tem as sobreviventes do Divinas Divas, temos a história da Phedra, mas a média de vida de transexuais é de 35 anos; e em sua maioria por questões trágicas”, afirmou. “E o Brasil é país que mais mata travestis no mundo”, acrescentou Cláudia.

Para os três cineastas, a questão Queer, e principalmente a transexual, passou da fase se discutir sobre o fato de o ser, ou se transformar, do que se é, e entra agora em pauta a questão do movimento, de como pessoas transexuais e queers transitam na rua, vivem, trabalham, produzem para a sociedade.

A construção de um novo cinema, mais plural e inclusivo

Como observou Lufe, a própria discussão entre o masculino e o feminino está em pauta. “O que é o feminino e o masculino hoje? Tem gente que jura que sabe. E estão sofrendo. E falo com todo respeito. Às vezes a gente precisa não ter certezas”, comentou.

A possibilidade de se deparar com dúvidas em um mundo contemporâneo que propõe muitas questões e desafios é vista como uma oportunidade de expansão de conceitos e da construção de um novo cinema, mais plural e inclusivo. “Muito do que foi falado aqui é como a construção artística do que a gente quer como utopia. Esta construção tem muitas camadas e felizmente a gente não vai conseguir abarcar tudo”, declarou o cineasta.

Como observou Lufe, no futuro, em vez de LGBTQI, “a sigla vai ser H, de humano.” “Ainda tem muito pano pra manga. Tudo vai se expandir e vão surgir outras formas de vida. A gente nunca vai terminar este desenho do que é o universo da diversidade. Ele começa e vai expandindo cada vez mais”, concluiu o diretor.

por Flavia Guerra

(Foto: Alf Ribeiro)

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