Corra! faz história ao subverter o terror para falar de racismo

20 abr 2018

Se há um filme que merece ser chamado de original na recente safra do cinema, Corra! é definitivamente um deles. Não por acaso foi eleito pela crítica do 44º Festival Sesc Melhores Filmes como o melhor filme estrangeiro de 2017. Não foi por acaso também que o longa deu a Jordan Peele o título de primeiro roteirista negro da história a levar para casa o Oscar de Melhor Roteiro Original, além de ter sido indicado a Melhor Direção. O longa ainda concorreu a Melhor Filme e Melhor Ator (Daniel Kaluuya).

E para quem considera o Oscar apenas um prêmio do cinema comercial americano, vale lembrar que o poder de reverberar seus temas em todo mundo é tão grande quanto o de mobilizar a audiência de milhões de pessoas em todos os continentes. O movimento por uma maior e mais diversa representação negra no cinema ganhou muitos aliados com a #oscarsowhite (“Oscar tão branco”), mobilização promovida pelos profissionais negros de Hollywood diante de edições do Oscar que só nomeavam atores, atrizes e outros talentos brancos do cinema.

Depois do #oscarsowhite, que questionou principalmente a ausência de indicados negros na premiação da Academia de Hollywood em 2016, houve mudanças consideráveis. Prova de que a mobilização, seja online seja na cobrança de políticas públicas e novas dinâmicas inclusivas de mercado, dão resultado. 2017 foi o ano com o maior número de profissionais negros nomeados, tendo Moonlight como grande vencedor da noite. Além de Melhor Filme, o longa de Barry Jenkins levou a estatueta de Melhor Roteiro Adaptado e deu a Mahershala Ali o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Vale lembrar que Moonlight também recebeu o prêmio de Melhor Direção Internacional da crítica e o público do 44º Festival Sesc Melhores Filmes.

De volta ao Oscar, 2017 foi também o primeiro ano com atores negros indicados em todas as categorias. Além de Mahershal, e Naomi Harris por Moonlight, Denzel Washington foi indicado a Melhor Ator por Um Limite Entre Nós, Octavia Spencer por Estrelas Além do Tempo, e Ruth Negga concorreu a Melhor Atriz por Loving. Por fim, Viola Davis levou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Um Limite Entre Nós. Neste ano, não só havia atores e atrizes negros nomeados nas quatro categorias de atuação como Jordan Peele foi indicado a melhor ator e Corra!, a melhor filme e roteiro original. Sem contar que Lágrimas do Mississipi, de Dee Rees, também foi indicado a Melhor Roteiro Adaptado (para Dee Rees e Virgil Williams) e ainda levou a primeira indicação de uma mulher ao Oscar de Melhor Fotografia (Rachel Morrison)

Horror e humor acima de rótulos

Por estas e por outras que Corra!, somente por suas indicações e prêmios, já entrou para a história. Mas atendo-se ao filme em si, o longa é um caso raro de produção que subverte o próprio gênero para tratar de temas complexos com inteligência, ironia e humor. No caso de Corra!, o tema central é o racismo. Há quem o chame de terror racial, há quem o defina como terror, há quem o chame de comédia. O fato é que o longa é impossível de ser rotulado.

A trama, a propósito, conta a história do fotógrafo Chris Washington (Kaluuya), que namora a jovem Rose Armitage (Allison Williams) e é convidado por ela para conhecer os sogros, que moram em uma bucólica casa de campo. Ele tem o cuidado de perguntar se ela contou aos pais que o namorado é negro. Ela responde que isso não é uma questão, pois seus pais não só não são racistas como seu pai votou e votaria novamente em Barack Obama.

Chegando lá, ele sente que há algo de muito estranho. E por estranho entenda-se muito mais que o fato de que os empregados da casa são todos negros e exibem uma simpatia quase tão mecânica quanto seus sorrisos petrificados. Fatos estranhos, como uma estranha festa (sobre a qual o casal não foi avisado) para os amigos dos pais de Rose, começam a acontecer. Para piorar, o único convidado negro da tal celebração tem um surto e, a partir daí, a narrativa entra em uma espiral de fatos tão surreais quanto simbólicos.

Não se deixe levar pelo aparente descuido da produção (a cargo da Blum House, produtora famosas por seus filmes de terror de baixo orçamento). Nada é por acaso em Corra!. O que pode parecer falta de cuidado nas soluções de roteiro, e até mesmo direção de arte, não é necessariamente porque se trata de um filme de terror B. Há nas entrelinhas de Corra! a ironia fina de quem enfrenta o racismo todos os dias e sabe usar dos clichês (da sociedade e do gênero) para subverter este horror (este sim o real).

A sequência final do longa traz um comentário certeiro sobre quão clichê é, na verdade, a visão estereotipada com que o negro é sempre enquadrado na sociedade contemporânea. Mais real, cômico, trágico, e surreal, impossível. Se isso não for suficiente para fazer de Corra! um marco, não sei o que é.

Por Flavia Guerra

(Imagem: Dilvugação do filme Corra!)

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