Com seu realismo fantástico, “Los Silencios” mantém olhar atento sobre a realidade brasileira

10 abr 2019

Para celebrar os melhores filmes de 2018, nada melhor que um destaque brasileiro: Los Silencios. Dirigido por Beatriz Seigner, o filme fez sua première mundial na Quinzena dos Realizadores do 71º Festival de Cannes, na França, e chega agora, nesta quinta, às telas de 30 cidades brasileiras.

Antes, na quarta, o longa foi exibido após a cerimônia de premiação dos vencedores do 45º Festival Sesc Melhores Filmes, no CineSesc. “Los Silencios é um filme para se ver no cinema, pois tem muitos detalhes sonoros e visuais que a apreciação se torna melhor em uma tela grande. E exibi-lo no CineSesc é um sonho. É maravilhoso”, comenta a diretora.

Para ela, exibir o filme para os convidados da premiação do Festival Sesc Melhores Filmes é uma ótima forma de também prestigiar o público do CineSesc, sala que sempre valoriza o cinema brasileiro. “Fora que o festival é maravilhoso; é uma chance ótima para a gente ver e rever os grandes filmes do ano. Sem contar que a política pública do Sesc é a política em que eu acredito. Devo muito da minha formação ao Sesc”, declara Beatriz, que, com Los Silencios, assina seu segundo longa – o primeiro é Bollywood Dream – O Sonho Bollywoodiano, de 2010.

Vencedor do prêmio de Melhor Direção no 51º Festival de Brasília, Los Silencios narra a história de Amparo (Marleyda Soto), que foge do conflito armado na Colômbia para o Brasil com seus filhos pequenos. Ela acaba em uma ilha entre a fronteira entre o Peru, o Brasil e a Colômbia e, em meio à sua luta para retomar a vida,  reencontra o pai das crianças (Enrique Diaz), que até então era dado como desaparecido. A história se passa em uma ilha habitada por fantasmas no Rio Amazonas, em que o universo fantástico e místico se mistura à crueza de uma realidade em que os moradores tentam superar seus traumas e suas histórias de violências sofridas.

Reconstruir a vida em meio à violência

A diretora conta que, depois de lançar Bolywood Dreams, buscava uma história que trouxesse os elementos de Los Silencios. “Uma amiga me contou que sua história de infância, quando migrou para o Brasil e encontrou o pai que era dado como morto e vivia aqui. Esta história entrava e saia da minha mente. E então comecei a pesquisar, conversar com imigrantes que viviam aqui e assim foi nascendo o roteiro”, conta Beatriz.

Para ela, o longa, que faz sua estreia no Brasil ao mesmo tempo em que chega aos circuitos comerciais da França, Suíça e Alemanha, traz temas muito atuais, pois narra a saga de quem tenta reconstruir sua vida em meio a uma realidade violenta, em que muito não é discutido, não é falado e muitos traumas são soterrados. “Como é a vida de uma mãe que tem de lidar com seus desaparecidos, com os filhos, com o trabalho, com a sobrevivência? Quais as questões que uma pessoa tem de lidar para tocar a vida adiante?”, questiona a cineasta, que está feliz com o fato do filme ganhar as telas neste momento. “Ele está gerando discussões necessárias que são muito necessárias no mundo e no Brasil de hoje”, comenta.

Não por acaso, Los Silencios também recebeu o Stockholm Impact Award, no 29ª Festival Internacional de Cinema de Estocolmo, na Suécia, prêmio criado pelo artista chinês Ai WeiWei dado ao filme de maior impacto do festival.  Além disso, recebeu a Menção Honrosa da UNESCO, o prêmio honorário do Festival Internacional de Cinema de GOA, na Índia; levou o prêmio de Melhor roteiro e o prêmio especial do Júri no Festival de Lima, no Peru; o prêmio da Cooperação Espanhola no Festival de San Sebastian, na Espanha, Melhor Contribuição Artística do Festival de Havana, em Cuba, Melhor Filme de Guerra, no War in Cinema, Grande Prêmio do ICAE (Confederação dos Cinemas de Arte e Ensaio), e do Cine Junior, na França, entre outros.

Confira a entrevista da diretora ao blog do 45o Festival Sesc Melhores Filmes:

Como surgiu a ideia de escrever e dirigir Los Silencios, um filme que, apesar de trazer uma temática universal, tem uma narrativa muito particular?

Depois que voltei da Índia, buscava uma história com os elementos que este filme tem, pois ele emociona, toca o espectador ao trazer a jornada heróica desta mulher deste lugar, que é uma mulher aparentemente comum, que precisa tocar sua vida, criar os filhos depois de perder o marido para o conflito armado. É uma história que uma amiga minha me contou de sua infância, quando migrou para o Brasil e encontrou o pai que era dado como morto e vivia aqui. Esta história entrava e saia da minha mente. Comecei a pesquisar e a conversar com imigrantes que viviam aqui, investigar mais sobre o processo de paz na Colômbia, que me interessava muito. E assim o roteiro foi nascendo.

E o cenário? É uma ilha que de fato abriga moradores na tríplice fronteira, não? Como a descobriu?

Foi também parte do processo de busca, pois eu estava procurando uma comunidade de casas de palafitas. E assim encontrei a Ilha da Fantasia, que fica entre Brasil, Peru e Colômbia. Esta ilha fica quatro meses do ano debaixo d’água. Assim como na história, é um lugar que lida com os limites entre os mundos, a natureza, os vivos e os mortos. Além disso, recebe imigrantes de toda parte da América Latina. Isso também tem tudo a ver com o filme, pois há a luta de seus habitantes para sobreviver, há toda a cosmologia muito particular desse lugar.

E estes moradores da ilha, assim como os personagens do filme, também carregam consigo histórias de traumas e violências?

Sim. Sempre tentei ser muito íntegra com a história que estava contando, tanto nas escolhas estéticas quanto nas narrativas. Los Silencios conta a história desta mulher, Amparo, que é uma mãe que se vê obrigada a seguir sozinha, depois de perder o marido para o Conflito Armado colombiano. O filme acompanha a jornada desta mulher, que é mãe, que lida, como tantas outras, com seus desaparecidos, mas que tem de criar seus filhos, arranjar trabalho. O filme fala de sobrevivência. Quais são as questões que uma pessoa tem de encarar para tocar a vida adiante?

Certamente questões que trazem consigo a violência que sofreram.

Exatamente. A violência no nosso filme está sempre fora de quadro, nunca é explícita, mas quando se passa por determinados traumas parece que a violência nunca te deixa. Muito por isso, todo o ambiente do filme ambiente remete à guerra. O barulho do barquinho é como o helicóptero da guerra; os sons, os movimentos, tudo faz lembrar da guerra de qual estão fugindo.

Los Silencios trata também, obviamente, do silenciamento que ocorre muitas vezes depois que populações passam por episódios de guerras, ditaduras, violências. Quebrar este silêncio é importante?

Muito importante. Não por acaso, em ocasião da data que marca o Golpe Militar e o início da Ditadura no Brasil, em 31 de março, foi realizada a Caminhada do Silêncio. Este nome não foi por acaso. Qual é o lugar de escuta dos mortos? Como lidamos, no Brasil, com o som da morte e da escuta dos que foram mortos durante o regime militar e, muitos, até hoje estão desaparecidos. Como a gente faz para honrar os nossos mortos?

Assim como no filme, é preciso ouvi-los para se ter paz?

Sim, é preciso. Não tem como ter paz sem justiça social. No filme, há a cena da Assembleia dos Mortos. E na vida real esta assembleia também existe. São pessoas que de fato passaram pelos conflitos de vários lados. São vítimas de todos os lados, de civis até ex-guerrilheiros da Farcs (Forças Armadas Revolucionárias, que travaram uma longa guerra civil contra o  governo colombiano, deixando mais de 200 mil mortos, milhões de desalojados e milhares de feridos).  Em todas as reuniões que acompanhei – e também no documento  das negociações de paz em Havana – falava-se em equidade de gênero, reforma agrária, justiça restaurativa, combate ao racismo.

São questões universais. Daí também a força do filme ter tocado públicos tão diversos e ser premiado em festivais tão diferentes em vários países.

Com certeza. E são todas questões que o Brasil, país latino-americano que também, é, tem muito que discutir e que atualmente não está tomando como prioridade. Aliás, tirando o trabalho da Comissão da Verdade, além de muito não estar sendo falado, estão sendo contadas muitas mentiras. Isso é muito forte e preocupante.

A propósito do que une os povos latino-americanos, o realismo fantástico é sempre um ingrediente muito forte. Como foi a escolha dos elementos fantásticos para o filme, que já foram, aliás, comparados com o cinema asiático, como o do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul (de O Tio Boonmee, que Pode Recordar de Suas Vidas Passadas, vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2010)?

Nossa realidade brasileira, e latina, tem muito do realismo fantástico. Somos um povo que convive com nossos mortos. E isso de certa forma se vê também nas culturas orientais, que possuem uma ligação forte com a natureza, assim como nós brasileiros também somos muito ligados aos nossos ancestrais indígenas e africanos. No Brasil, convivemos normalmente com o espiritismo, com a umbanda, com os ritos indígenas. No sul asiático e na África, também há este convívio entre os mundos, as culturas. Talvez o racionalismo europeu que transformou os contato com o mundo dos mortos em algo que dá medo.

E o olhar do público de festivais europeus deu margem a estas comparações, que são também bem vindas.

Sim. Por isso reitero que nós e os asiáticos e africanos somos muito irmãos em termos de cultura e ritos. O Amazonas se parece muito com o sul asiático O Realismo Fantástico faz parte do nosso cotidiano e é até ingrediente necessário muitas vezes para se sobreviver. Na Ilha em que filmamos, os moradores comentavam normalmente sobre os espíritos que viviam ali.  Interessante que na França, há alguns dias, no lançamento do filme lá, todo mundo me perguntava muito como a situação política no Brasil. Na première do filme em Paris, a debatedora, para terminar, falou do realismo fantástico. E eu comentei que espero que o espírito da Marielle nos ajude a tirar estas pessoas do poder. Assim como no filme, nossos mortos flutuam numa coexistência com o tempo presente.

Por Flavia Guerra

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