A dor e a delícia de ser brasileiro: um retrato dos documentários brasileiros de 2020

01 abr 2021
Partida, de Caco Ciocler

Se o cinema brasileiro é um grande espelho das nossas realidades, essa afirmação vale mais ainda para os documentários, que lançam um olhar direto sobre a dor e a delícia de ser brasileiro. A dor: conflitos de classe, problemas históricos que demoramos a superar (ou nunca superamos), preconceitos, desigualdade social. A delícia: os grandes talentos do nosso cinema, música, literatura ou do nosso meio acadêmico; nossas raízes culturais e religiosas.

Sabemos que o ano de 2020 foi atípico em estreias, com poucos lançamentos. Dos 60 longas brasileiros lançados do cinema, 16 deles – pouco mais de 25% – foram documentários. Num país que vive uma intensa polarização política, pelo menos desde o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, não será surpresa constatar que sete documentários do ano passado (quase metade do total) giram em torno dessas feridas abertas.

Partida, de Caco Ciocler, é o que ataca a questão mais de frente. Desiludidos com a eleição de Jair Bolsonaro, o ator-diretor, uma grande amiga, a atriz e diretora teatral Georgette Fadel, e uma turma de amigos alugam um ônibus para irem ao Uruguai encontrar o ex-presidente José Mujica, buscando um ar fresco longe de um país que deu uma brusca guinada para a extrema direita, a intolerância e a ilusão armamentista.

Maria Luiza, de Marcelo Díaz

Militarismo e racismo no Brasil

Falando em cultura armamentista, o passado e o presente militar do país aparecem em ao menos três outros documentários. Inserido no subgênero “filmes sobre a ditadura militar”, Fico te devendo uma carta sobre o Brasil mostra a diretora Carol Benjamin entrelaçando a história de sua família com esse período de total falta de liberdade. Outras duas obras analisam o universo militar brasileiro do presente: Maria Luiza, de Marcelo Díaz, história da primeira transexual das Forças Armadas e toda a sua luta contra o preconceito num ambiente conservador; e Soldado Estrangeiro, de José Joffily e Pedro Rossi, que faz um contraponto positivo desse universo, mostrando o sonho de três jovens que desejam ingressar em forças militares no exterior.

Também presente nas discussões do ano passado, o racismo estrutural brasileiro deu as caras em dois fortes títulos: Dentro da Minha Pele, de Val Gomes e Toni Venturi, acompanha a história de nove pessoas com diferentes tons de pele negra e o preconceito que sofrem em seus cotidianos; e Sem Descanso, de Bernard Attal, conta a história de Geovane, jovem negro da periferia de Salvador que um dia foi parado pela polícia e nunca mais foi visto.

Curioso notar que esses documentários citados têm forte parentesco com dois longas de ficção também do ano passado: M8 – Quando a morte socorre a vida, de Jeferson De, sobre um estudante de medicina numa universidade de alunos brancos; e Nóis por Nóis, Jandir Santin e Aly Muritiba, sobre quatro jovens da periferia de Curitiba vítimas da violência policial.

Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou, de Bárbara Paz

Orgulhos nacionais

Se nossos desgostos e vergonhas estiveram presentes nas telas, o mesmo se pode dizer dos nossos orgulhos. O gênero do documentário biográfico contemplou inúmeros talentos nacionais, vivos ou mortos, desde a retomada do cinema brasileiro nos anos 1990, nos dando quatro lindos novos exemplares no ano passado.

O mais criativo deles talvez seja Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou. Com um trunfo raro – a intimidade do casal –, a cineasta Bárbara Paz fez um filme que abraçou o registro pessoal e fugiu completamente do formato tradicional das “cabeças que falam”, onde pessoas diversas dariam depoimentos sobre o cineasta Hector Babenco (Pixote e O Beijo da Mulher Aranha). Muitos temas de Babenco estão ali – o fato de não se sentir nem brasileiro nem argentino, a inquietação humanista de seus filmes –, mas a sombra que paira no filme é a da morte iminente do cineasta. Só que essa morte não pesa como algo negativo no tecido do filme, pelo contrário, é mais um elemento filosófico que engrandece pelo impacto no resultado final.

No terreno da música, que já nos rendeu documentários sobre tantos nomes – Caetano Veloso, Maria Bethânia, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Tom Jobim, Marina Lima –, a maior contribuição do ano foi Adoniran, Meu Nome é João Rubinato, de Pedro Serrano, sobre o grande compositor paulistano Adoniran Barbosa (1910-1982). O guitarrista Lenny Gordin, que tocou com a nata da MPB nos anos 60, ganhou seu retrato com Inaudito, de Gregorio Gananian. E a arqueóloga Niède Guidon, figura importante que descobriu as pinturas rupestres no Piauí, foi tema de Niède, de Tiago Tambelli.

Fora do terreno da biografia, três outros ótimos filmes lembraram aspectos importantes da nossa cultura: Família de Axé, de Tetê Moraes, enfoca a importância do candomblé por meio da figura do pai de santo Alberto Ribeiro Santana; Faz Sol Lá Sim, de Claufe Rodrigues, joga luz sobre a curiosa cidade de Marechal Deodoro, em Alagoas, especializada em “exportar” instrumentistas grupos, bandas e orquestras de todo o país; e Fotografação, de um dos veteranos do nosso cinema, o cineasta Lauro Escorel, retraça a história da fotografia quando essa arte é diretamente afetada pelos avanços tecnológicos no Brasil até os dias de hoje.

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